Educação Inclusiva no Canadá: o que se deve fazer?

Rede SACI
30/10/2003

Autor acredita na reflexão conjunta e ordenada para sanar possíveis obstáculos e levar a sociedade a um consenso sobre o que de fato representa a educação inclusiva

Comentário SACI: Tradução de Maria Amelia Vampre, da Federacao das APAES.

Gordon Poter*

O Canadá é conhecido como um dos países que tornaram a educação inclusiva uma realidade para crianças com necessidades especiais, incluindo deficiências, durante as últimas décadas. "Mudando as Escolas Canadenses" (Changing Canadian Schools) que co-editei com Diane Richler, foi publicado em 1991. O livro documentava as inovações na prática educacional que foram desenvolvidas nos anos oitenta e que nos davam grandes razões para esperanças ao adentrarmos a última década do século. Agora os anos noventa
ficaram para trás. O otimismo que sentíamos por práticas educacionais inclusivas desbotou. Embora seja verdadeiro que mais crianças estão sendo incluídas em classes regulares em escolas da vizinhança do que jamais ocorreu antes, a mudança sistêmica que iria beneficiar cada criança não aconteceu. O movimento no sentido de se criar escolas inclusivas diminuiu e novas questões educacionais, mandatos e modismos passageiros, passaram a exigir a atenção das autoridades públicas e educacionais.

O que se pode fazer para mudar isso? Será que nosso movimento pode retomar a iniciativa e fazer com que mais progressos no sentido de criar escolas inclusivas se torne uma realidade em toda a nossa nação? Talvez. Porém isso vai exigir algumas estratégias novas e novas abordagens. Vai exigir que nos empenhemos em discussões com aqueles que assumem riscos educacionais, usando linguagem nova e partindo de novas direções.

O clamor por empatia em relação às necessidades da criança com necessidades especiais não funcionou em muitas jurisdições escolares. Houve relacionamentos antagônicos com representantes de escolas e isso não levou a resultados bem sucedidos. Temos visto que o que pode ser descrito como defesa clássica (classic advocacy) fracassou em atingir os nossos objetivos. Portanto, qual o curso de ação que poderíamos tomar para nos sairmos melhor no futuro?

Em primeiro lugar, precisamos redefinir a nossa agenda como sendo algo que visa conseguir escolaridade de alta qualidade para todos os alunos. Precisamos ser vistos como aliados daqueles que trabalham por escolas melhores. Precisamos que os professores no enxerguem como aliados no esforço que fazem de ter classes mais reduzidas e apoios apropriados. Precisamos ajudar a comunidade educacional a ver que as estratégias e práticas que tornam as escolas boas escolas também possibilitam que se tornem escolas inclusivas. O fato é que a "heterogeneidade" é um componente essencial do esforço de atingir altos níveis de sucesso para todas as nossas crianças.

Boas escolas podem ser escolas inclusivas; escolas de má qualidade não servem para nenhuma de nossas crianças. Em segundo lugar, precisamos formar parcerias na comunidade, a níveis provincial e nacional, com outros grupos que compartilham o nosso interesse em escolaridade de qualidade para todos. Isto inclui grupos profissionais de professores, administradores e faculdades de educação para professores. Também inclui organizações de pais, grupos de direitos de pessoas com deficiências, e grupos que buscam a igualdade. Precisamos ampliar a compreensão do que é inclusão. E, vamos falar francamente, precisamos trabalhar mais junto a nossos próprios membros, incluindo pais que têm medo ou se mostram resistentes à educação inclusiva.

Isto me traz ao meu objetivo final. Precisamos nutrir a visão da inclusão não somente entre pais de crianças em idade escolar, mas entre nossos membros de modo geral. Precisamos tornar claro que a possibilidade de construir uma comunidade inclusiva sem o apoio de escolas comunitárias é irrealista. Inclusão comunitária exige inclusão escolar. Para que adultos façam parte de suas comunidades, eles precisam ser educados em escolas comum em conjunto com seus coleguinhas não deficientes. Apoiar os pais na luta por educação inclusiva deve se tornar uma prioridade para cada membro e todos os empregados do movimento. Precisamos renovar o nosso compromisso de conseguir alcançar educação inclusiva em base sistêmica em todas as comunidades do Canadá. A continuação de escolas especiais e classes especiais deve ser vista como resultado vergonhoso de discriminação e desigualdade, mas, também, como o resultado de mau conhecimento profissional e habilidade profissional inadequada. Sabemos que a inclusão é boa para as crianças. Sabemos que educadores eficientes podem tornar a inclusão um sucesso. Chegou a hora de mobilizarmos nossos esforços para ver que isso seja alcançado neste novo século.


* Gordon Porter foi presidente da Canadian Association for Community Living (CACL) e é o atual Presidente da Inclusion InterAmericana. Trabalha em iniciativas de educação inclusiva com o The Roeher Institute.

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