Lousã terra de emoções...com acessibilidade
Rede SACI
10/05/2004
João Henrique fala da acessibilidade nas praias fluviais de Lousã
João Henriques*
Há continuamente locais que visitamos e ficamos deslumbrados. Achamos sempre, serem o sítio perfeito para viver, seja pela sua localização, paisagem, habitantes ou por condições de acessibilidade.
O Concelho da Lousã terá alguns destes requisitos. A Lousã fica situada perto da cidade de Coimbra. Com uma vista privilegiada para a serra. Os seus habitantes são simpáticos e hospitaleiros. Embora os transportes públicos, (comboio ou camioneta) não tenham infra-estruturas de acessibilidade. A vila em si é um oásis em comparação com muitas outras em seu redor. Devido à sua situação geográfica as Praias Fluviais e Casas de Turismo Rural abundam, foi então que decidi ir visitar algumas com o intuito de ver as suas condições de acessibilidade e depois escrever este artigo.
Fi-lo num Verão como o de 2003, trágico pelas vagas de calor que assolaram toda a Europa matando um número indeterminado de pessoas e provocando incêndios de dimensões nunca vistas. Tornava-se, então, agradável estar em locais perto da natureza e favoráveis a temperaturas suportáveis.
Requisitei uma carrinha com elevador a uma instituição, para ter condições de conforto. Recorri a A.R.C.I.L. (Associação para a Recuperação de Cidadãos Inadaptados da Lousã) para permitir uma fácil deslocação. Após explicar as razões para a qual pretendia este material disponibilizaram-se, desde logo, a colaborar.
Em primeiro lugar fui à Praia Fluvial da Bogueira, em Casal de Ermio, cerca de 6 km da Lousã a temperatura do ar rondava os 35º graus (calor a mais para mim) mas como estava a deslocar-me para junto do rio Ceira, tornou-se agradável.
Casal de Ermio é uma pequena aldeia, bastante pacata. Parece que o tempo não passou por lá, fazendo lembrar uma música da Elis Regina "conversando no bar", já o mesmo não se pode dizer da sua praia fluvial.
Com um percurso pedestre lindíssimo por uma das margens do seu rio, contemplada com um bar com espanada em madeira por cima do rio, quartos de banho, balneários e mesas para piqueniques. Mas, ao analisar estas novas infra-estruturas surgem algumas lacunas ao nível da acessibilidade, por exemplo: o bar não tem rampa de acesso para pessoas com necessidades especiais para a parte mais agradável (a que fica por cima do rio); as rampas de acesso ao W.C. são um pouco inclinadas, a única rampa que atravessa o rio e dá acesso às canoas de passeio não possui acessibilidade.
Outrora, aquele local era unicamente composto por enormes rochas e terras ao abandono. Admite-se que ao terem feito aquele percurso junto ao rio facilitou e passou a permitir a deslocação mais ou menos fácil para um cidadão de cadeira de rodas. O livre contacto com a natureza, o estar perto da água e das árvores seria impensável alguns anos atrás para um cidadão com necessidades especiais.
Destino seguinte, uma casa de Turismo Rural. O calor ainda era muito e a bebida fresca que tinha tomado em Casal do Ermio era insuficiente..., (verifiquei que com a vaga de calor as folhas caíam secas como se estivesse-mos no Outono). "Quinta de Além do Ribeiro", situada entre Casal de Ermio e Lousã. A entrada permite sair facilmente da carrinha, tem um quarto e bar acessível, o seu espaço exterior completamente circulável, permitindo fácil deslocação. Lamenta-se unicamente não ter um elevador para o 1º piso.
Duas semanas depois utilizando a mesma carrinha da A.R.C.I.L. desloquei-me à Praia Fluvial da Sr.ª da Graça em Serpins, fica mais ou menos a 11 km da Lousã. Nessa tarde apareceram uns pingos de chuva o que fez descer um pouco a temperatura. Havia Sol e chuva em simultâneo o que fez rasgar o Céu por um lindíssimo arco-íris com mil e uma cores, reza a tradição que, por baixo de um arco-íris está um pote de ouro. Vai-se lá saber se será verdade!!!
Mas a razão que me levara àquele local era a acessibilidade, ela estava lá, com rampas para permitir uma fácil deslocação ao balneário. Contudo, havia alguns aspectos negativos: ausência de superfície plana na sua entrada (mas nada que inibisse a deslocação de uma cadeira de rodas); mas uma rampa com material anti-derrapante seguida de um degrau... "com destino à areia"... isso é que nunca! Um verdadeiro atentado contra os "Direitos Humanos!!!" - Vim logo embora... Compactuar com discriminações: - "Não, never"! (ver galeria de fotos em http://www.euroacessibilidade.com/ ).
Para recuperar as forças físicas e mentais atravessei a ponte e fui comer um cachorro a um bar chamado "Moinho". Tinha unicamente uma rampa para a esplanada, mas o interior não tinha sido contemplado com esta infra-estrutura, provavelmente devido à sua pequenez.
Último destino, uma casa de Turismo Rural "Villa Jesuína". A acessibilidade existia unicamente pelo lado do estacionamento dos automóveis. O seu espaço exterior tinha alguma grandeza e acalmia, com um mini apartamento e muita relva, - Haja força para empurrar a cadeira na relva que a piscina fica perto!!! sendo a casa também inacessível.
Os proprietários eram muito simpáticos (senhores de alguma idade) confessaram não ter pensado na acessibilidade. Mas depois de eu ter chamado à atenção afirmaram ir corrigir o que estava errado. - Fica a esperança!.
Em conclusão: Se em alguns destes locais já era difícil construir com acessibilidade, mais fácil foi faze-lo sem respeitar as normas técnicas de acessibilidade. Dizer que mesmo assim melhorou muito, também é verdade! Agora com alguma habilidade é possível estar junto a um rio. Ver, sentir, o cheiro, o tacto... no fundo respirar a natureza, coisa impensável a alguns anos atrás.
* João Henriques é portugês, tem 35 anos e tornou-se tetraplégico em um acidente. Para saber mais sobre ele e sobre a acessibilidade em Portugal, acesse seu site pessoal "Acessibilidade em estado se sítio" (http://www.euroacessibilidade.com/).
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