Praia de Mira. Quase tudo e quase nada...

Rede SACI
Mira - Portugal, 23/05/2006

Praia acessível, próxima a uma baía não tão acessível...

João Henriques

Procurar um local como destino para férias indo ao encontro de vários tipos de fauna e flora não é tarefa fácil, muitas das vezes não está longe de nossa casa. Basta procurarmos e logo encontramos.

Darei como exemplo a praia de Mira e seu Lago de água doce (Barrinha). A praia de Mira fica a cerca de 250Km de Lisboa e 140km do Porto e da minha residência, Lousã, aproximadamente 80Km. Confesso que gosto de deslocar-me a este local por ser possível estar em dois tipos de ecossistemas em poucas dezenas de metros. Para uma pessoa com deficiência percorrer este local que deveria por direito ser acessível devido às constantes intervenções feitas pelo homem, engane-se aquele que pensa que o homem teve esse cuidado...

Sendo assim, vejamos o meu percurso por terras de Mira...

Ao chegar à praia de Mira havia que encontrar um estacionamento para pessoas com deficiência; deparei-me então com a escassez deste tipo de estacionamentos. Encontrei!!! Saí do carro e fui apanhar um pouco de ar fresco junto à baia (Barrinha), fazer aquele percurso entre o arvoredo e água doce, sabendo que a água salgada ficava a poucos metros dali e ao longe as dunas olhavam para mim inacessíveis... tal paisagem dão energias a qualquer pessoa. É caso para dizer que estar perto da natureza alimenta a mente. Junto à Barrinha existe um percurso para bicicletas (ciclovia) com rampa de acesso da estrada até ao passeio; decidi aproveitá-lo e assim evitar circular com a cadeira na terra. Depois deste percurso feito, acho que não se pensou nas pessoas com mobilidade reduzida, porque não existem percursos que permitam uma fácil deslocação para perto da água facilitando também o acesso às pontes, mirantes, ou mesas de piqueniques.

Tinha chegado a hora de fazer o percurso pelo passeio de paralelo, a água doce da Barrinha ficava de um lado da estrada com os seus patos bravos em conjunto com as "gaivotas" flutuantes para turista pedalar, diga-se para bem da verdade que um cidadão com deficiência dificilmente conseguiria utilizar estes barcos devido ao seu péssimo acesso. O outro lado da rua era "banhado" por restaurantes. A calçada encontrava-se em muito bom estado, pensei então em ir visitar o Museu Etnográfico e o Posto de Turismo, mas este edifício construído em madeira encontrava-se sem infra-estruturas de acessibilidade.

- Aonde e que eu ouvi dizer que é proibido proibir!?! Pois proibiram-me de ir ao museu!!!

Agora tinha que procurar um restaurante. Um restaurante!!! Um restaurante, só que fosse com acessibilidade... foi missão impossível. Confesso que junto à baia todos os restaurantes que percorri tinham barreiras arquitectónicas. Para almoçar tive de subir vários degraus de escada, que tarefa árdua para uma só refeição... enquanto almoçava via passar os pescadores com as suas canas, frustrados por trazerem os cestos vazios...

Próximo destino, Praia de Mira, areia. Sol e água salgada era o que me esperava, ficava duas avenidas acima; tive que me deslocar sempre por estrada porque os passeios não tinham rampas de acesso e aí estava eu na marginal da praia, esta praia possui a Bandeira Azul da Europa e tem o apoio da Fundação Vodafone como patrocinador oficial para tornar a praia mais acessível para todos.

Da marginal para a praia a deslocação é fácil, pois possuía uma rampa de acesso para a areia; todos os bares que ficavam na praia possuíam rampa de acesso, alguns deles até usufruíam de rampa do bar directamente para a praia, estas ultimas um pouco inclinadas. A praia de Mira está também apetrechada com um W.C. adaptado a pessoas com necessidades especiais, a Fundação Vodafone disponibilizou um suporte informativo para os banhistas com tradução paralela em linguagem Braille, os chuveiros que ficavam entre a praia e a marginal tornavam-se funcionais para as crianças; no entanto acho que as passadeiras deviam ser mais largas, mas a verdade é que eu gosto desta praia. Da calçada avista-se o Mar e tudo o que um banhista necessita parece estar ali tão perto.

Depois desta longa caminhada resta tirar algumas ilações deste local ao nível da acessibilidade, até porque tem sido o meu destino de eleição de há dois anos para cá; no que diz respeito à praia de Mira, teve grandes melhorias no acesso para os banhistas. Na zona da baía, pessoalmente acho que está desaproveitada para a riqueza natural que possui e as condições de acessibilidade não são conservadas nem melhoradas. Diga-se ainda que nesta zona turística só encontrei uma passadeira com rampa. Que estranho!!! Foi tão estranho que quando passei na passadeira com rampa um condutor parou o carro para eu passar, agradeci, e ele respondeu: "Não fiz mais que o meu dever..." e sorriu...

Concluo com o seguinte, para me poder deslocar a esta praia pedi à ARCIL (Associação para a Recuperação de Cidadãos Inadaptados da Lousã) que me transportasse numa das suas carrinhas, sempre senti que o fez com gosto. E numa das vezes que fiz esta viagem fui acompanhado por crianças desta instituição, reparei então no carinho com que as monitoras as orientavam, este é outro tipo da acessibilidade, que não se compra numa loja nem tem preço e muito menos se consegue pagar, não possui cotação na bolsa de Tóquio nem de Nova Iorque. Eu sempre fui apologista que quando se faz bem não é por acaso... é porque nos esforçamos por fazer bem.

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