Hábito nota 10

Revista Sentidos
28/06/2007

A leitura é uma aliada poderosa do desenvolvimento pessoal. E faz diferença quando o assunto é inclusão

Comentário SACI: Matéria de 15/06/2007

Cláudia Gisele

Um livro pode mudar a vida da gente. A leitura permite vivermos histórias alheias. Cada experiência imaginada é provocativa. Faz a gente sair do lugar, andar para a frente. O contato com livros é importante em todas as fases da vida, mas é na infância que o hábito de leitura deve ser despertado. Quanto mais a criança lê, maior será sua capacidade criativa e crítica, o domínio da linguagem, e maiores serão as oportunidades que terá na vida adulta.

Entre pessoas com deficiência, essas oportunidades significam algo mais: inclusão. Os pais de Romeu Neto, 22 anos, que tem síndrome de Down, sempre pensaram assim. Luiz Augusto Santos, médico, e a mãe, a professora Sandra Santos, tiveram dificuldade para encontrar apoio profissional em Belém (PA), onde moram, quando ele nasceu. Ouviram que não deviam ter grandes expectativas com o filho "mongolóide". Mas acreditaram no potencial do menino. O casal inseriu na rotina familiar atividades para estimular o desenvolvimento de Romeu. Entre elas, a leitura diária de histórias infantis - e de poesia. A casa também foi modificada. Todos os objetos ganharam uma cartolina com o nome escrito: porta, cadeira, mesa... Graças a isso, Romeu entrou na escola já alfabetizado. E cresceu adorando ler. Tanto que virou escritor. Em 2006, lançou seu segundo livro de poesias, Ventos Mergulhantes, pela editora Paka-Tatu.

"A leitura beneficia qualquer pessoa", afirma a doutora em educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Adriana Limaverde. "Entre crianças com deficiência mental, que têm dificuldade de compreender o mundo conceitual e simbólico, ela abre muitas possibilidades de aprendizagem. Permite navegar pelo conhecimento e elaborar a compreensão do mundo." Adriana trabalhou com grupos de jovens com deficiência mental durante seu mestrado e doutorado, buscando analisar a relação deles com a leitura e a produção de textos. Concluiu que quanto maior o contato com textos, maior será a capacidade de escrita e o vocabulário. O ambiente de aprendizagem também faz toda diferença, especialmente no que diz respeito à diversidade de experiências e à afetividade. "Eles lembram histórias que leram ou ouviram quando crianças, sempre relacionando isso a um momento de carinho."

Dalila Serpa, 17 anos, recorda com carinho as histórias que a avó e a mãe contavam. Quando ainda não sabia escrever, desenhava os personagens que tomavam conta de sua imaginação. Mesmo não enxergando direito os desenhos no papel - ela possui baixa visão -, recorria a eles para relembrar as histórias. Foi assim que Dalila acostumou-se a exercitar a imaginação. Ainda hoje, sempre que lê um livro anota as impressões em um caderno. Algumas vezes sente-se estimulada, deixa a imaginação fluir e escreve suas próprias histórias. "Isso me ajuda muito. Tenho muita facilidade para decorar textos para o teatro, por exemplo", conta. Dalila participa do grupo de teatro do Instituto Benjamin Constant (IBC), no Rio de Janeiro, onde também freqüenta a quinta série do ensino fundamental.

Para a chefe de gabinete do IBC, e professora de português, Glória Almeida, Dalila colhe os frutos de quem se habituou a ler desde os primeiros anos de vida. "A criança lê antes de ser alfabetizada, pois ouvir uma história é uma forma de ler," afirma. Glória, que é cega, explica que a deficiência visual não faz ninguém ser mais imaginativo, como alguns acreditam. Para ela, a falta de estimulação tem como conseqüência um imaginário pobre. E isso vale para qualquer pessoa. "O espírito do homem é igual. É necessário burilar esse espírito e o livro é um ótimo instrumento para isso." Crianças cegas, por não poderem experimentar certas situações, encontram na leitura uma grande aliada. Lendo, conhecem o mundo que as cerca e passam a ter condições de interpretá-lo.

Infelizmente, nem todos têm acesso a livros. As crianças que freqüentam o IBC contam com mecanismos de adaptação que garantem acesso à leitura. Entre eles, impressão de material em braile e recursos eletrônicos como leitores digitais e ampliadores de texto para quem tem baixa visão. Mas a impressão de versões em braile é raridade nas editoras.

"Meu livro foi o único em braile entre os lançamentos da Bienal do Livro de 2006", afirma a escritora Cláudia Cotes, autora de Dorina Viu, livro infantil inspirado na história de Dorina Nowill (Edições Paulinas). Cláudia é presidente da Vez da Voz, ONG que promove atividades lúdicas para crianças com e sem deficiência. A organização também produz livros, CDs e DVDs com histórias contadas na Língua Brasileira de Sinais (Libras).

O material é distribuído gratuitamente e contém histórias caracterizadas pela diversidade. "Falamos de crianças que possuem deficiência e que brincam, vão à escola naturalmente, para permitir que os leitores identifiquem-se positivamente com os personagens." Para a escritora, o material é importante especialmente para crianças surdas, já que a produção de vídeos em Libras para o público infantil é escassa. "Se a criança surda não for estimulada terá um universo lingüístico bem menor em relação ao ouvinte."

Uma história pode ser traduzida para diferentes linguagens. Pode ser contada em palavras ou gestos, escrita no alfabeto tradicional ou em braile. O importante é que esteja sempre ao alcance de uma criança para ser a amiga que ensina a imaginar, estimula a produzir e ajuda transformar sonho em realidade.

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