Eleições municipais e candidatura de pessoa com deficiência: Algumas reflexões

Rede Saci
09/10/2008

Artigo do Prof. Dr. Wiliam César Alves Machado

Como diz um antigo adágio, "só se aprende fazendo"! Não é que acabei aprendendo que é possível fazer política com dignidade, não obstante o fato de viver num país cujos exemplos políticos pregressos não são nada coadunáveis com princípios e valores morais. Postulante a uma vaga no legislativo municipal de Três Rios, cidade pólo da região centro-sul fluminense, pude experimentar no decurso da última campanha política o significado das mazelas indissociáveis aos vergonhosos pleitos eleitorais em nosso país. Mesmo cônscio de que tal processo representa grande desafio para não-deficientes dignos que se propõem a concorrer a uma das 10 (dez) vagas no legislativo municipal; do esquema corruptivo que corre nos bastidores das relações entre eleitores e candidatos; da falta de acessibilidade e limitações funcionais enfrentadas pelo usuário de cadeira de rodas para acesso à casa de cada eleitor; das despesas decorrentes da contratação de pessoas não-deficientes para exercer funções que nos são inviáveis; entre outros aspectos; mantive a firme convicção de que era momentopropício para lutar por mais espaços para o segmento pessoas com deficiência (PcD) na cidade que resido.

Meus credenciais reportaram ao fato de ter sido membro fundador e presidente do Conselho Municipal para Integração das Pessoas com Deficiência de Três Rios - CMPDE - por cinco anos, professor universitário, pesquisador e consultor de projetos de acessibilidade, escritor e autor de livros sobre a temática, além de substancial histórico representativo na mídia local atuando na defesa dos direitos das PcD. Uma boa oratória e argumentos coerentes nas oportunidades de falar para apresentar propostas aos eleitores em cada comício que participei, realmente foram elementos que julgava decisivos para que tudo saísse bem e me fizesse conhecer além das freqüentes participações em programas de rádio, televisão e de coluna semanal no jornal de maior circulação e impacto da região, o Entre-Rios Jornal.

Entusiasmante perceber que meus pares, seus familiares e/ou pessoas significativas, além de demais interessados na inclusão social das PcD prestavam muita atenção para cada palavra proferida, como se estivessem frente ao salvador da pátria. Muitos expressavam flagrante demonstração de estarem se realizando através das questões discorridas pelo locutor que não podia subir no palanque improvisado na carroceria de um caminhão. Falava do chão, enquanto minha imagem era projetada no telão, inclusive conquistando atenção e interesse de cidadãos até então alheios aos meandros dessa nobre causa social.

Me apresentei como postulante ao cargo de representante dos 11.000 deficientes da cidade para a vereança, segundo indicadores estatísticos do IBGE. Alguém preparado para sugerir, elaborar e implementar projetos na área de acessibilidade, serviços de saúde em reabilitação, educação inclusiva com viés da educação especial, habilitação e qualificação para o trabalho, adaptação da frota no transporte coletivo, esportes, lazer e atividades culturais inclusivas. Discurso coerente com o plano de governo apresentado pelos candidatos a prefeito e vice eleitos, o qual prevê a criação de uma Secretaria Municipal para Inclusão das Pessoas com Deficiência e Idosos, sobremodo esperançoso e apostando na construção de uma cidade melhor para todos os trirrienses.

Trabalhamos muito, com seriedade, sensibilidade, fraternidade, ética, consciência social e aguçada percepção do que precisa ser realizado no plano prático, para a consecução de propósitos bem consubstanciados, a partir da leitura da realidade que se nos apresentava nos mais diversos logradouros visitados. Lamentavelmente, os votos obtidos na apuração das urnas não foram suficientes para eleger nossa candidatura, numa clara evidência da lacuna existente quanto ao nível de consciência, significado da representatividade e maturidade político-social tanto dos deficientes aptos ao voto quanto de seus familiares, direta ou indiretamente envolvidos no complexo cotidiano de cuidado das PcD. Diagnóstico quantitativo que nos impele maior investida no sentido de tornar mais claro para as PcD da premência de estarmos diretamente representados nas instâncias executiva e legislativa municipais, para que os encaminhamentos de pendências afetas a este grupo social sejam agilizados com mais objetividade por alguém que compreenda seus significados subjacentes e, consequentemente, surtindo efeitos mais favoráveis ao segmento como um todo.

Mais evidente se mostra, porém, o quanto precisamos convergir esforços no âmbito do fortalecimento da capacidade crítica e reflexiva desse segmento da sociedade, considerando que a consciência cidadã apenas emerge do insistente ato de compartilhar oportunidades de se construir o próprio aprendizado. Constatei que nesse caminhar em sentido adverso ao estabelecido, imperativo se faz estimular a condução crítico-reflexiva do pensamento, como estratégia fundamental para o emergir de bases sólidas da consciência política do grupo. Aproveito para reafirmar disposição de colaborar com o que for preciso na construção de uma cidade melhor para todos. Para encerrar, reporto ao pensar de Albert Einstein quando ele disse: "A vida não dá, nem empresta; não se comove, nem se apieda. Tudo quanto ela faz é retribuir e transferir tudo aquilo que nós lhe oferecemos".

Prof. Dr. Wiliam César Alves Machado

¤

Busca

Busca do governo

* Estatísticas

Visitas: 3.736.049

* Realização:

logo da USP

* Apoiadores:

logo da Future Kids logo da Planeta Educa??o
logo da IBM logo da Digital Recovery
logo da Unicamp Logo da Amankay
logo da Pr?-menino/RISolidaria logo da Tec Art
logo da Pro-fono logo do Instituto Toledo de Ensino
logo do InterNexo logo da Federação Nacional das Apaes


* Fale Conosco

Entre em contato com a Rede SACI

*Rede SACI

Av. Prof. Luciano Gualberto trav.J, 374, térreo sala 20
Cidade Universitária - 05508-900 - São Paulo - SP
Tel: (11) 3091.4155 / 4371