Verão é Verão. Tempo de férias calor e praia. Mas com acessibilidade

Rede SACI
07/01/2004

João Henriques fala sobre a praia de Figueira da Foz

Comentário SACI: Texto originalmente escrito em português de Portugal.

João Henriques*

A Figueira da Foz fica na zona Centro de Portugal, a 40 km de Coimbra, 130 km do Porto, e 190 de Lisboa. Essa praia que esteve na moda em meados das décadas de 60 e 70, e, depois, entrou numa fase descendente. Agora, com as suas actualizações ao nível de acessos e atracções turísticas contempladas com infra-estruturas de acessibilidades, ela voltou a ser uma praia bastante frequentada. Foi por isso que, nesta época balnear, eu decidi deslocar-me a esta praia, para conhecer as suas actuais condições de acessibilidade.

Tomei como destino a Figueira da Foz, mas, assim que cheguei, foi extremamente difícil encontrar estacionamento para o carro. Provavelmente por nos encontrarmos na chamada "época alta", o que ainda coincidiu com o facto de estarmos a uma semana do Mundialito de Futebol de Praia.

Depois de ter conseguido sair do carro, foi fácil subir para a calçada junto à praia, porque a passagem era bastante baixa junto às passadeiras. Assim, pude percorrer uma grande parte da calçada à beira mar. Mais tarde, quando quis deslocar-me para a praia, também foi facílimo, devido à abundância de rampas da calçada para a areia. Isso permitiu que eu apanhasse um pouco de sol.

Quando eu já me encontrava na praia, deparei-me com os passadiços (passagem ligando pontos da praia) em madeira erguidos por pilares na areia que percorriam a praia de lés-a-lés tanto para junto do mar como a paralelo dele, permitindo uma fácil deslocação da cadeira de rodas. Isso evitou os habituais atolamentos da cadeira na areia. Estes passadiços eram também contemplados por alguns bancos de descanso. Reparei que eles eram utilizados por pessoas com alguma idade. Uma excelente idéia para descansar depois de uma caminhada!

Mas o calor apertava, e já estava na altura de eu procurar um local para poder descansar. Foi então que recorri a um Posto de Turismo. Lá, estranhamente, encontrei uma certa falta de informação quando perguntei onde podia encontrar um quarto que tivesse acessibilidade. Depois, acabaram por recomendar dois ou três hotéis.

Escolhi o Hotel Costa de Prata. Sua fachada encontrava-se em obras de melhoramento, pois estavam a construir ou recuperar a sua rampa de acesso (por sinal, um pouco apertada para uma cadeira de rodas). Dirigi-me à recepção. Eles me deram um atendimento personalizado, com hipótese de escolha do quarto. Naquele momento pensei que todos seriam circuláveis, mas bem me enganei!

Fiquei num quarto acessível junto à cama, mas sem acesso de cadeira de rodas para a varanda, e era com alguma dificuldade que eu podia usufruir do quarto de banho. Depois de descansar um pouco, chegou a hora de procurar um restaurante para jantar. Mas, antes, eu queria deslocar-me ao Forte de Santa Catarina para ir ver o pôr do sol.

Adoro ver o pôr do sol junto à praia. Parece que o sol se vai afundar pelo mar adentro, como uma enorme bola de fogo. Não foi difícil chegar ao Forte, porque até lá não existia qualquer tipo de obstáculos. As passadeiras eram, inclusive, quase niveladas com a estrada.

Agora lá estava eu procurando um restaurante. Encontrei. Pecava unicamente por ter uma rampa um pouco inclinada. Todo ele possuía infra-estruturas de acessibilidade, desde a mesa de jantar um pouco mais alta para caber a cadeira de rodas, ao quarto de banho dentro das normas técnicas de acessibilidade.

Chegada a noite, havia que procurar algum divertimento. Deslocamo-nos para perto do Cassino da Figueira. As esplanadas estavam repletas de turistas. Existia muita animação nas ruas! Passei por um Gigantone (pessoa mascarada que anda sobre pernas de madeira ou alumínio para ficar muito alta), ele com as suas enormes calças escondendo as suas pernas de pau, cumprimentando e alegrando graúdos e miúdos e eu disse: "Não és suficientemente alto para passar por cima de mim". Mas ele, equilibrando aqui, equilibrando ali, lá conseguiu.

Chegada a madrugada, eu e uma amiga que me acompanhava decidimos ir dar uma volta pela Praia. Deslocamo-nos então à Torre do Relógio, que funciona como um ponto de encontro para os turistas. Percorrer esta praia era mais fácil. Por meio dos passadiços facilmente chegamos aos holofotes que iluminavam o Oásis naquele imenso areal. Eu penso que percorremos quilómetros. Ouvíamos o mar e contava-mos 1,2,3,4,5 uma onda 1,2,3,4,5,6,7 outra onda. O mar estava bravo e a brisa entrava para os pulmões e chegava a circular pelo coração.

Toda esta caminhada só foi possível devido às obras de melhoramento durante esta meia dúzia de anos nos passadiços da praia. Pela minha experiência, o ideal é optar sempre por circular pela facha das bicicletas, porque as tábuas não provocam tantas trepidações na cadeira.

E assim, foi possível estar calmamente num imenso areal, a ver ao longe os holofotes das discotecas, os carros e as pessoas a circular na cidade com toda a sua agitação. Presumo que é desta calma que vem a frase: "Verão é Verão. Tempo de férias calor e praia". Mas com acessibilidade.


* João Henriques é portugês, tem 35 anos e tornou-se tetraplégico em um acidente. Para saber mais sobre ele e sobre a acessibilidade em Portugal, acesse seu site pessoal "Acessibilidade em estado se sítio" (http://www.euroacessibilidade.com/).

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